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Espaços idealizados, humanos idealizados: representações do espaço e do herói em The Call of the Wild de Jack London

Author:

Jéssica Iolanda Costa Bispo

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Departamento de Línguas, Culturas e Literaturas Modernas, Universidade Nova de Lisboa, PT
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Abstract

The West presents itself in American culture as an idealized space with unique characteristics, allowing it to become a place where various myths flourish and shape the United States of America until today. The journeys to the West undertaken by the first settlers and their accounts contributed to create certain expectations in Eastern people regarding Western landscape, native population or the new opportunities that the place could provide, while simultaneously constructing the idea of the frontier, a space in which the individual is also idealized and where different figures emerge, each with their own peculiar features that shape the concept of hero for the Americans. The Call of the Wild (1903) by Jack London approaches all these concerns, which is why this article intends to observe how the book portrays not only wilderness but also how the figure of the hero, together with conceptions of masculinity that are ingrained in Americans’ collective memory, is frequently connected to anxieties about the inability to live up to it. Similarly, the essay will also try to understand which idealizations are in fact subverted or not, especially through Buck, and what they may symbolize in the novel and in America’s cultural panorama.


Abstrato

O Oeste apresenta-se na cultura norte-americana como um espaço idealizado com caracter-ísticas peculiares, permitindo que se tornasse um local propício à construção de diversos mitos que até aos dias de hoje marcam os Estados Unidos da América. As viagens dos primeiros colonizadores em direcção ao Oeste norte-americano e os seus diversos relatos permitiram que a população de Este criasse determinadas expectativas sobre aspectos como a paisagem, a população nativa ou as novas oportunidades que o território poderia oferecer, tendo simultaneamente sido construída a ideia de fronteira, espaço onde o indivíduo é igualmente idealizado e onde surgem diferentes figuras com características próprias que correspondem a uma concepção de herói americano. The Call of the Wild (1903) de Jack London apresenta todas estas temáticas, pelo que o presente artigo pretende não só observar de que forma a obra retrata o mundo selvagem mas também como a figura do herói, aliada a concepções de masculinidade que percorrem o ideário americano, está frequentemente envolta em ansiedades relacionadas com a incapacidade de atingir o mesmo. Da mesma forma, tentaremos também perceber que idealizações são de facto subvertidas ou não, principalmente através de Buck, e o que poderão as mesmas simbolizar tanto no contexto da história como no panorama cultural americano em geral.


Palavras-chave: Espaço; humanos; fronteira; herói; Oeste

How to Cite: Bispo, J. I. C.. “Espaços Idealizados, Humanos Idealizados: Representações Do Espaço E Do Herói Em the Call of the Wild De Jack London”. Anglo Saxonica, vol. 17, no. 1, 2020, p. 6. DOI: http://doi.org/10.5334/as.24
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  Published on 10 Jan 2020
 Accepted on 11 Nov 2019            Submitted on 11 Nov 2019

A construção da imagem do Oeste americano sempre se revelou extremamente complexa e paradoxal. O território dos Estados Unidos da América foi conquistado de uma forma muito particular, recorrendo a mitos que acabaram por definir a própria identidade americana. Estes mitos, entre outros propósitos, serviram para justificar a própria conquista1 do território, bem como propagar certos ideais que definiram a percepção da população relativamente ao Oeste e à ideia de fronteira. O contributo de Frederick Jackson Turner é incontornável neste último aspecto, definindo a fronteira como o ponto de encontro entre a selvajaria e a civilização (“the meeting point between savagery and civilization.” (F. J. Turner)). No entanto, Turner acrescenta a ideia de que esta mesma fronteira se encontra em movimento e esta forma de pensamento é posteriormente utilizada em diversas obras literárias.

Articulado com o mito da fronteira e as idealizações feitas relativamente ao Oeste americano, surge o mito do herói impulsionado por diversas narrativas que apresentam um ideal masculino caracterizado por uma paixão pela sua ocupação e propriedade, preparação para qualquer tipo de acção, coragem, independência e robustez (Peterson 77–78). Este estereótipo ganhou forma através das mais distintas figuras: cowboy, homem da fronteira, ranchman, outlaw, entre outros, contribuindo para a idealização feita pelos indivíduos americanos do sexo masculino que esperariam atingir estes role models.

Jack London, na sua obra The Call of the Wild (1903), explora todas estas temáticas tão pertinentes na cultura americana. Aliás, as suas obras abordam frequentemente a questão da identidade e o que significa ser americano, tendo sido estudadas sob diversos pontos de vista, incluindo as demonstrações de masculinidade divulgadas através de diversas personagens, diferentes percepções da paisagem americana e questões de cariz político, como nota Weronika Łaszkiewicz: “London’s works have already been studied countless times for their political manifestos, development of masculinity, and heart-wrenching descriptions of the natural environment” (16).

As experiências pessoais do autor devem também ser tomadas em consideração, uma vez que influenciaram os pontos de vista presentes em The Call of the Wild. Afectado pelas condições miseráveis que observou nos bairros pobres do East End londrino quando aí viveu,2 London idealiza um retorno à natureza concebendo a história de Buck, um cão que cresce num ambiente recheado de comodidades e atravessa uma radical transformação após ser vendido como sled-dog, perseguindo os seus instintos primordiais impulsionados pelo crescente contacto com o mundo selvagem. Além disto, é também importante notar que London simpatizava com o chamado darwinismo social,3 advogando a sobrevivência dos indivíduos mais capazes:4 é precisamente esta ideia que temos presente em The Call of the Wild, não só representada através dos animais mas também dos humanos que decidem realizar a expedição em busca do ouro.

Tendo em conta estas breves considerações iniciais, o presente ensaio pretende assim analisar a forma como The Call of the Wild explora a imagem do Oeste através das suas descrições da paisagem e da relação das personagens com esta, bem como a presença do mito da fronteira e como o mesmo influencia o progresso da história. Tentaremos no fundo perceber como Buck interage com o mundo natural descrito por Jack London e de que forma este corporiza diversas concepções, por vezes irrealistas, relativas à paisagem e à ideia de fronteira presentes na memória colectiva americana. Através da análise de duas personagens em particular – Buck e Hal – pretendemos demonstrar como o mito do herói, sempre em conjunto com a interacção estabelecida com o mundo natural, é representado na obra e como há uma subversão do mesmo através da paródia, simbolizando esta a incapacidade de o homem americano corresponder na totalidade aos role models que lhe são impostos. Assim, verificaremos de que forma idealizações de masculinidade e da figura do herói podem colocar potencialmente em perigo os aventureiros que corajosamente esperam desbravar o território que moldaram de acordo com as suas expectativas, bem como observar as ansiedades que estes experienciam na busca pela sua verdadeira identidade.

1. O espaço idealizado

1.1. O selvagem

Um dos aspectos passíveis de análise em The Call of the Wild é a forma como esta obra retrata a natureza e o mundo selvagem. Através de Buck e da sua viagem, Jack London descreve uma paisagem brutal que não demonstra qualquer misericórdia perante os aventureiros e respectivos cães que a atravessam, sendo que apenas os mais fortes conseguem sobreviver neste ambiente hostil. No entanto, é curioso verificar que é esta mesma natureza que permite a Buck ter contacto com os seus instintos primordiais e afastar-se do ambiente de abundância em que cresceu. A característica natureza paradoxal dos Estados Unidos da América é, aliás, frequentemente representada na obra. A natureza é simultaneamente um adversário feroz que testa a capacidade de adaptação do ser humano5 e do animal e um verdadeiro jardim paradisíaco que convida à exploração porque se apresenta inicialmente como intocável. Longe de ser uma característica presente apenas em obras literárias, verificamos que esta ideia paradoxal influencia tanto a percepção do homem americano relativamente à paisagem que este consegue idealizá-la e transformá-la segundo as suas expectativas:

Lewis and Clark’s report describing the torturous 220-mile portage through the deep snows of Montana’s Bitterroot Mountains seriously damaged the concept of a Northwest Passage. However, their report did nothing to erode the notion of the West as an agricultural wonderland destined for American use. Despite the fact that Lewis and Clark described great treeless expanses, unnavigable rivers, and an array of native peoples, Anglo Americans continued to believe that the Far West could be readily molded to fit their economy, society, and culture. Lewis and Clark found a garden, perhaps a rocky and cold one, but a garden nevertheless—because they were expected to find one. (Hyde 178)

Apesar de The Call of the Wild não apresentar uma viagem em direcção ao Oeste, esta ideia continua presente na mente das personagens através da dicotomia Norte/Sul ao invés de Este/Oeste. A diferença entre Norte e Sul é bastante acentuada ao longo da obra, uma vez que London enfatiza diversas vezes a distinção entre civilização e primitivo, relacionando a primeira com o Sul e o segundo com o Norte (Dunn 26). O afastamento da sociedade capitalista caracteriza a viagem de Buck e se tivermos presente o simbolismo do seu nome,6 é possível observar que o valor de compra dele aumenta com o aperfeiçoamento das suas capacidades de liderança mas decresce quando este se aproxima do mundo selvagem que tanto deseja.

Proporcionando uma evasão da sociedade dita civilizada, o mundo selvagem do Norte do Canadá surge como um guia espiritual para Buck e uma voz que o chama e convida à liberdade harmoniosa desprovida de seres humanos:7 “It was the call, the many-noted call, sounding more luringly and compelling than ever before. And as never before, he was ready to obey. John Thornton was dead. The last tie was broken. Man and the claims of man no longer bound him” (London, The Call of the Wild 61).

Esta relação pacífica do animal com a natureza funciona como uma metáfora para a consciência que o Homem deveria ter relativamente ao ambiente. Buck incorpora o espírito individualista tipicamente americano, no entanto, a ideia de ser necessário manipular a natureza para provar que o ideal de masculinidade é atingido está ausente. Esta tentativa de atingir um ideal implica aquilo que Pamela Harper define como forgery of the self: “[T]he trend of manipulation of nature in order to prove virility is threatening. It is the opposite of harmony with nature: a forgery of the self, and The Call of the Wild shows that this deceptive view of superiority can only lead to destruction of nature” (65). Desta forma, pode-se verificar que a atitude de superioridade humana relativamente à natureza não corresponde à verdadeira essência do homem, que deveria procurar abraçar o ambiente tal como Buck.

Este animal atravessa uma mudança radical e pura, simbolizando assim o homem que não deturpa a sua identidade para servir ideais estabelecidos pela sociedade americana. Estando perto do mundo selvagem, é conferida ao homem uma profunda consciencialização de si mesmo e do lugar que ocupa no ambiente que o rodeia. Libertando-se da prisão urbana, e aceitando sujeitar-se às forças da natureza e aos instintos primordiais, o homem poderá ser totalmente livre. Esta ideia está, aliás, profundamente enraizada na cultura americana.8

Por outro lado, é ainda possível considerar que Buck é retratado como um cão precisamente com o intuito de acentuar a diferença entre humano e animal. Ele sofre uma reversão e procura a fonte dos seus instintos, ao contrário da maioria das personagens humanas que nunca se adaptam verdadeiramente ao ambiente que as rodeia e encaram a deslocação ao Norte como uma obrigação que responde à sua ambição. Verifica-se assim que a ideia de mutabilidade está sempre presente e Buck revela-se uma importante marca de distanciamento em relação ao humano que não respeita o meio ambiente.

1.2. A fronteira

The Call of the Wild explora também ansiedades relativamente à perda da fronteira, aludindo à ideia de que existem outras fronteiras além do Oeste americano: neste caso, o Norte do Canadá, perto do Alasca,9 e as terras que teriam de ser atravessadas para chegar até esta região. A viagem de Buck e dos seus companheiros humanos representa assim um avanço da fronteira e isso é acentuado pelos traços que caracterizam estas personagens, correspondendo a um certo ideal de masculinidade relacionado com a figura do pioneiro: “Just as the idea of the frontier depends on both physical displays and fantasies of masculine power, so, too, does London’s depiction of the Northland constitute both a physically real and imagined space for the recovery (or rediscovery) of the lost frontier” (Bruni 27).

Existe assim um desejo nostálgico pela recuperação de uma fronteira que, apesar de já não existir, ainda pode ser recriada no contexto do gold rush10 experienciado no Norte do Canadá. Como referido, estas fantasias surgem aliadas às idealizações de masculinidade, pelo que as regiões de difícil travessia na obra de London se apresentam como o espaço ideal para a sua concretização. Excepto Charles, Hal e Mercedes, Buck e as restantes personagens que o acompanham são, de um modo geral, confiantes, individualistas mas com plena noção de como trabalhar em grupo, resistentes e diligentes. Perrault é escolhido como mensageiro do governo porque está disposto a correr qualquer tipo de risco (“Nothing daunted him. It was because nothing daunted him that he had been chosen for government courier. He took all manner of risks” (London, The Call of the Wild 17)), tal como François que não desiste perante as circunstâncias mais árduas (“(…) behind the sled was François, pulling till his tendons cracked.” (Ibidem 18)). Já o homem escocês está encarregue de transportar notícias aos indivíduos que participam na expedição, mantendo um ritmo de trabalho tão pesado quanto o de Perrault ou François: “heavy toil each day, with a heavy load behind; for this was the mail train” (Ibidem 27). Finalmente, John Thornton é caracterizado como possuindo um espírito lutador e como não tendo qualquer medo do mundo selvagem (Ibidem 49, 51), sendo mesmo comparado a um nativo: “Being in no haste, Indian fashion, he hunted his dinner in the course of the day’s travel; and if he failed to find it, like the Indian, he kept on travelling” (Ibidem 52).

Desta forma, vemos que Thornton se aproxima imenso da descrição que Frederick Jackson Turner elabora sobre os homens que habitavam a linha de fronteira: estes perderiam o acesso a qualquer tipo de elemento característico dos locais ditos civilizados e ganhariam hábitos típicos dos nativos (F. J. Turner). É ainda curioso notar que, à excepção de Thornton, as personagens acima nomeadas não são americanas. Hal, Mercedes e Charles são precisamente os únicos com nacionalidade americana confirmada. Jack London subverte assim a figura do pioneiro, conferindo características tipicamente americanas a personagens estrangeiras.

Perto do fim da obra há um momento, aliás, que se pode considerar uma luta típica de um contexto de fronteira quando os nativos Yeehats encontram o acampamento de Thornton, resultando na morte não só deste como do seu acompanhante Hans e dos restantes cães, à excepção de Buck:

This dog was thrashing about in a death-struggle, directly on the trail, and Buck passed around him without stopping. From the camp came the faint sound of many voices, rising and falling in a sing-song chant. Bellying forward to the edge of the clearing, he found Hans, lying on his face, feathered with arrows (…)/The pool itself, muddy and discolored from the sluice boxes (…) contained John Thornton. (London, The Call of the Wild 59–60)

Uma vez que temos apenas acesso à perspectiva de Buck, é possível notar que os nativos são representados como invasores, sendo que Thornton lutou apenas para defender o seu acampamento. No entanto, apesar de existir este discurso típico de fronteira, é necessário ter em atenção que é o desfecho da luta com os Yeehats que permite que Buck se entregue completamente ao mundo selvagem e elimine o seu último vínculo ao mundo civilizado.11 Thornton não tem de facto uma intenção explícita de conquistar território aos nativos e ocorre aqui uma subversão na medida em que é a morte deste que liberta verdadeiramente Buck.

Por fim, é possível considerar ainda outro aspecto igualmente interessante relacionado com as previamente mencionadas qualidades desejáveis no contexto de fronteira e associadas ao carácter americano: o facto de London fazer uma crítica relativamente à sociedade industrializada e consumista. Buck ganha estas características desejáveis e novas capacidades apenas quando abandona o conforto da sua casa na Califórnia, espelhando assim a ideia de que uma over-civilization promove a perda da vitalidade masculina, uma vez que o homem não está em contacto com a natureza (Bruni 34).

A fronteira surge assim como um espaço ambíguo que espelha ansiedades e desejos americanos, constituindo uma importante parte da mitologia da nação. A este propósito, Riley McDonald destaca o contributo da noção de fronteira para a memória colectiva dos americanos, referindo ainda uma das ansiedades que iremos abordar de seguida, ou seja, a ameaça ao ideal masculino potencialmente trazida pela sociedade industrializada e a resposta à mesma através da exploração do selvagem: “the geographical frontier (…) fired the imagination and ideology of American life for centuries (…) as a necessary space of American masculinity vanishing amid industrial expansion” (McDonald 72).

2. O humano idealizado

2.1. Buck como o herói americano

A figura do herói é transversal a diversas culturas, operando a um nível mitológico com o intuito de simplificar complexidades relacionadas com experiências históricas e sociais, bem como justificar uma determinada moral ou abordagem política no contexto do uso de poder (Slotkin 13). Em The Call of the Wild, Buck surge como uma metáfora do herói tipicamente americano12 desde o início da obra: “Buck is recognized as such an extraordinary supercreature even from the beginning of his story” (Johnson 15).

Em primeiro lugar, o animal possui características que o definem como um ser aparentemente superior: na propriedade de Miller tem supremacia sobre os restantes animais13 e a sua vida é comparada à de um aristocrata. Mais tarde, quando é vendido como sled-dog, as suas capacidades são desenvolvidas e existem diversas situações em que é descrito como sendo único e um verdadeiro herói. François considera-o diferente de todos os cães que já conheceu e afirma que irá destronar Spitz, o líder da matilha, assumindo posteriormente a liderança. Thornton, por sua vez, experiencia Buck a mover um trenó extraordinariamente pesado, tendo também a sua vida salva pelo animal duas vezes em actos heróicos (London, The Call of the Wild 25, 27, 45, 46, 48). A mitificação de Buck como herói acontece finalmente após a luta com os Yeehats, em que a tradição oral perpetua o relato de um cão espectral extremamente perspicaz que desafia os nativos e assassina caçadores: “At the end, Buck has become more than animal, more than humanized dog; as the Ghost Dog, he transcends nature and passes into myth” (Johnson 19).

Como podemos observar, Buck é mitificado como um animal poderoso e inteligente mas também feroz e mesmo maléfico.14 Esta imagem ambivalente do herói está muito presente na cultura americana e Buck transmite precisamente essa tendência, que Robert Hine e John Faragher abordam nos seguintes termos: “Americans are drawn to characters of paradoxical impulse, to ‘good-badmen,’ or army scouts who identify with the Indian enemy. Things are simple in the Western, but not always as simple as they seem” (192).

Salvando e matando, sendo o animal mais fiel mas também o mais feroz, epitomizando o individualismo mas demonstrando excelentes capacidades de cooperação, Buck apresenta-se simultaneamente como um herói e um anti-herói:

The dog Buck himself is something of a contradiction in terms. He is both heroic and demonic, viciously running down and wounding the treacherous lead dog Spitz before offering him to the pack to be killed, but later heroically risking his own life to save his master John Thornton in treacherous river rapids. (Johnson 3)

A ideia de que o povo americano está destinado a feitos superiores15 influencia também a forma como Buck pode ser percepcionado. A violência que o mesmo demonstra para com a tribo de nativos perto do fim da obra é apresentada como um acto justificado: o animal age tendo como base um sentimento de amor puro em relação a Thornton, ignorando quaisquer códigos morais que tenham sido adquiridos quando vivia na propriedade de Miller. Este comportamento, aliás, remete para uma outra figura recorrente na memória colectiva do povo americano: o outlaw. Tal como Buck, o outlaw enquadra-se no estereótipo do herói, violando a lei estabelecida mas servindo a justiça social e perseguindo os seus ideais nobres (White 387). A vingança do animal alia-se ainda a um peculiar sentimento de patriotismo, uma vez que Thornton representava o seu último vínculo à sociedade industrializada.

Este acto de Buck enfatiza uma vez mais o carácter individualista associado ao herói americano, pois após a morte de Thornton o animal afasta-se da alcateia no Verão para visitar o local onde o confronto violento com os Yeehats ocorreu: “In the summers there is one visitor, however, to that valley, of which the Yeehats do not know. It is a great, gloriously coated wolf, like, and yet unlike, all other wolves” (London, The Call of the Wild 62). Desta forma, é possível verificar assim que apesar de Buck ceder aos seus instintos primitivos e ao chamamento do mundo selvagem, a sua ligação com o humano continua presente, o que sustenta a sua interpretação como uma metáfora para a figura do herói americano.

2.2. Hal como a paródia do herói americano

Hal surge em The Call of the Wild juntamente com a sua irmã Mercedes e o seu cunhado Charles, sendo os quartos donos de Buck. Ao contrário das restantes personagens que acompanham o animal nas suas viagens, esta família representa a incapacidade de adaptação ao mundo selvagem e o anseio capitalista desenfreado que impede a tomada de decisões acertadas num ambiente tão hostil como este, como explicita Harper:

In Chapter 5 of The Call of the Wild, London introduces Hal, Charles, and Mercedes, the fourth owners of Buck’s team, an over-civilized trio of three inept beings who have responded to the puppet strings of society, the lure of the yellow metal, proving that capitalist incentives can overwhelm common sense. (69)

A dificuldade de adaptação demonstra que esta família ignora os perigos de uma região tão diferente como aquela de onde provêm,16 tal como os exploradores do século XIX encarregues de descobrir o Oeste americano desprezavam a realidade geográfica deste (Hyde 177/178), ou seja, as características do terreno ou a própria meteorologia, que se apresentavam muitas vezes como verdadeiramente inóspitos. Mantendo a ideia de que o mundo selvagem poderá ser usado para satisfazer as suas necessidades (neste caso, através da obtenção de ouro), Hal é introduzido na obra como uma paródia do herói americano.

A sua descrição é muito semelhante à de um cowboy: Hal é jovem (“a youngster of nineteen or twenty” (London, The Call of the Wild 32)), transporta uma arma de fogo consigo, símbolo recorrente na imagética relacionada com a figura do cowboy, juntamente com uma faca de caça que simboliza a proximidade com o mundo selvagem (“big Colt’s revolver and a hunting-knife strapped about him on a belt that fairly bristled with cartridges” (Ibidem)). O cinto é considerado o adereço mais marcante em Hal, representando a sua aparente insensibilidade e robustez. Outro pormenor bastante interessante é o facto de ter levado comida enlatada consigo, sendo também este outro símbolo bastante associado aos cowboys17 (“canned goods were turned out that made men laugh, for canned goods on the Long Trail is a thing to dream about.” (Ibidem 34)).18

Apesar de se enquadrar nesta imagem de masculinidade, Hal acaba por fracassar a diversos níveis: não tem sucesso a montar o seu acampamento porque ignora sucessivamente o clima da região, coloca demasiado peso no trenó e os seus cães são incapazes de o movimentar, não consegue alimentar os animais porque desconhece as suas necessidades (causando a morte de vários) e, finalmente, acaba por liderar o trenó em direcção a um local extremamente perigoso onde o gelo característico do terreno acaba por ceder e causa a morte da família e de todos os cães excepto Buck:

Suddenly, they saw its back end drop down, as into a rut, and the gee-pole, with Hal clinging to it, jerk into the air. Mercedes’s scream came to their ears. They saw Charles turn and make one step to run back, and then a whole section of ice give way and the dogs and humans disappear. (Ibidem 41)

Hal enfrenta estes sucessivos fracassos sem alterar as suas ideias, mesmo quando outras personagens intervêm e procuram alertá-lo sobre os potenciais perigos que a região apresenta, uma vez que luta para atingir um ideal de masculinidade munido de heroísmo. Este tipo de comportamento denuncia as consequências de seguir uma idealização sem qualquer fundamentação na realidade, correspondendo a uma deturpação da própria identidade. A este propósito, Jonathan Auerbach menciona, na sua obra Male Call: Becoming Jack London, uma crescente crise relacionada com a masculinidade americana que assolou a população na mudança do século: “the turn of the century registers a growing crisis in American masculinity, as increasingly rationalized forces of economic incorporation made the market a less and less viable place for men to test their manhood” (57). Jack London poderia ter precisamente concebido Hal como símbolo do homem americano que tenta procurar uma forma de testar e provar o seu heroísmo, mas que inevitavelmente acaba por falhar quando ignora e subestima o meio que escolhe para tal provação. Este jovem é assim o perfeito exemplo do indivíduo que, não sendo capaz de exprimir a sua masculinidade através dos seus meios financeiros, parte em busca de uma outra fronteira. Desta forma, existe na obra uma alusão à ideia de que nem todos os indivíduos são capazes de sobreviver num espaço selvagem e o mesmo acontece com os animais: Buck sobrevive e prospera, enquanto que Hal fracassa e acaba por morrer.

A persistência do jovem funciona ainda como uma referência aos valores e estilo de vida encontrados na região referida na obra como Southland (em oposição à ameaçadora Northland):

Hal, Mercedes, and Charles represent the extreme of the unbendingly civilised Southlanders of London’s tale (…). Through their introduction to the narrative, London’s critique of Southland capitalist society reaches its apogee, as its civilised ways and corrupting materialism, revealed by these three characters, is subjected to minute scrutiny. (Higginson 326)

É assim feita uma crítica ao estilo de vida típico do Sul (mais especificamente a região onde Buck cresceu, i.e. Califórnia), marcada pelo capitalismo, materialismo e industrialização, juntamente com a apologia à convivência pacífica com a natureza, algo que Hal é incapaz de conseguir apesar de tentar diversas vezes. A breve análise desta personagem mostra assim que apesar de o herói americano corresponder a uma imagem particular à qual é possível atribuir vários símbolos, é também necessário que o mesmo siga uma certa moral e possua determinados traços psicológicos para que se enquadre no carácter tão desejado e idealizado pelo povo americano.

3. Notas conclusivas

O presente ensaio fez assim a análise de dois tipos de idealizações existentes na memória colectiva do povo americano: a idealização do espaço selvagem articulada com o mito da fronteira e a idealização do próprio humano, recorrendo a figuras masculinas com características heróicas. A análise do espaço selvagem em The Call of the Wild permitiu verificar que o mesmo possui a tão comum natureza paradoxal tipicamente americana, uma vez que se apresenta como um ambiente hostil, mas oferece também a possibilidade de libertação. A idealização da natureza é aqui apresentada através da percepção das diversas personagens em relação ao Norte do Canadá: as diversas viagens de Buck surgem como uma viagem ao Oeste e em busca de uma nova fronteira. Buck pode assim ser interpretado como uma metáfora para o ser humano, existindo aqui uma apologia à convivência harmoniosa deste com a natureza. Por outro lado, é possível focar o facto de Buck ser um animal e interpretar o mesmo precisamente como uma forma directa de criticar o homem que não procura a natureza com a intenção de conviver pacificamente com esta. A transformação ocorrida durante a viagem aponta ainda para a ideia de mutabilidade tão associada ao Oeste e ao espaço de fronteira.

A ideia de fronteira, como foi possível observar, surge na obra de London através das constantes viagens de Buck até ao Norte do Canadá, culminando com a luta entre John Thornton e a tribo de nativos Yeehats. Este espaço relaciona-se também com idealizações do ser humano, incorporadas na figura do pioneiro e, desta forma, a fronteira surge como um mito omnipresente na cultura americana associada não só a idealizações individuais mas também espaciais, sociais e históricas, como aponta Bruni: “The frontier myth (…) informs both individual and nation building. But this myth also depends on an historical illusion, that the frontier was an uninhabited place, just waiting to be discovered” (41).

Relativamente à análise de duas personagens em particular, Buck e Hal, foi possível concluir que Buck se enquadra no estereótipo do herói americano: é sempre caracterizado como um ser superior aos que o rodeiam, sofre uma mitificação quando passa a ser reconhecido como o temido Ghost Dog e possui características associadas a este tipo de herói, tais como a ambivalência, a robustez ou o individualismo. Hal, por sua vez, surge como uma paródia deste mesmo estereótipo: a sua aparência corresponde à de um cowboy, mas psicologicamente esta personagem não se enquadra nos traços associados a esta figura. Por essa razão, Hal revela-se incapaz de se adaptar ao espaço selvagem, fracassando constantemente e causando a sua própria morte.

No âmbito da presente análise, seria ainda interessante verificar como todas estas temáticas surgem em edições ilustradas de The Call of the Wild, uma vez que estas tiveram especial impacto nos leitores juvenis. A edição de 2006 da Saddleback, a título de exemplo, acentua a hostilidade do espaço selvagem, que surge como um ambiente desprovido de abrigo, coberto de neve e munido de longas rochas pontiagudas com aspecto certamente ameaçador (London, The Call of the Wild 2006 24–29). O contraste deste local com a propriedade de Miller é também feito de uma forma bastante curiosa, sendo que imagens do mesmo surgem como flashbacks na memória de Buck durante as suas noites no Norte do Canadá (Ibidem 36). A ideia de mutabilidade associada a Buck é, aliás, bem demonstrada nesta edição: o animal apresenta-se inicialmente com um aspecto dócil (Ibidem 7–8) mas perto do fim da obra é recorrente haver imagens dos seus dentes ferozes e do seu corpo lupino (Ibidem 56–57). Através destas representações, é verificável como certos estereótipos e idealizações relativas ao espaço e ao ser humano são propagadas não só através de texto mas também de imagens.

Da mesma forma, poderíamos também analisar estes temas tendo presente uma comparação entre o pensamento de Jack London e Theodore Roosevelt. Pamela Harper, na sua dissertação intitulada “Shared Spaces: The Human and the Animal in the Works of Zora Neale Hurston, Mark Twain, and Jack London”, defende a ideia de que a transformação de Buck ao longo da obra é genuína, ao contrário da imagem que Roosevelt propagava de si mesmo e do seu aparente convívio harmonioso com a natureza, que corresponderia a uma deturpação da sua verdadeira identidade (5). Vemos assim que uma obra como The Call of the Wild espelha diversas idealizações, mitos e ansiedades presentes na cultura americana. Longe de relatar uma simples história de aventura, observamos a existência de metáforas para linhas de pensamento sempre presentes no povo americano que influenciam enormemente a sua forma de encarar não só o próprio país mas também o resto do mundo.

Notes

1Note-se que o território americano era habitado por inúmeras tribos antes da chegada dos colonizadores europeus: “Historians now recognize that Europeans arrived, not in a virgin land, but in one that was teeming with several million people” (Salisbury 435). Além disto, a ideia de que existiria uma free land apta a servir as necessidades do homem branco colonizador aliada a estereótipos relativamente ao modo de vida das tribos contribuiu para a subjugação destas sob a égide da missão civilizadora dos colonizadores. 

2Este tema foi também abordado por Jack London na sua obra The People of the Abyss (1903), onde é efectuada uma comparação entre as condições de vida no East End de Londres e nas comunidades de índios inuit a viver no rio Yukon (Nuernberg 98). Vemos assim mais uma vez a forma como as experiências pessoais de London influenciaram as suas obras. É também interessante verificar que o próprio London pode corresponder de certa forma ao típico herói americano: “The biography of Jack London’s life is a model example of a ‘rags to riches’ story. Thanks to his diligence, hard work, and unyielding passion for knowledge and literature, London became one of the most renowned writers of his time, popular both in the US and abroad” (Łaszkiewicz 16). 

3Por darwinismo social entenda-se a aplicação da teoria de Charles Darwin relativamente à origem e evolução das espécies (expressa na sua obra On the Origin of Species publicada no ano de 1859) às sociedades em si. Mike Hawkins clarifica: “Darwin’s theory of natural selection (…) was embedded within and formed part of a wider world view. This world view was a configuration of assumptions concerning nature, time and human nature which gave natural selection its relevance and meaning. It consisted of the following: (i) biological laws governed the whole of organic nature, including humans; (ii) the pressure of population growth on resources generated a struggle for existence among organisms; (iii) physical and mental traits conferring an advantage on their possessors in this struggle (or in sexual competition), could, through inheritance, spread through the population; (iv) the cumulative effects of selection and inheritance over time accounted for the emergence of new species and the elimination of others” (30/31). 

4No entanto, aplicando esta ideia ao contexto social vivido pelo escritor, vemos que os indivíduos capazes correspondem ao homem branco que deveria ter a supremacia em relação a outras etnias: “(this basic understanding of imperialism is reflected in The Call of the Wild’s movement north into the Klondike, past American borders). Humans are competitive beings, certainly, but the notion emerged that the white male, specifically the white male American, should reign supreme” (Harper 64). London concordava assim com o facto de o homem ser naturalmente competitivo. Mas relativamente à natureza, a sua postura é diferente: o escritor acreditava que esta não se deveria conquistar e que ao homem caberia a função de encontrar o seu lugar no mundo selvagem de forma pacífica. 

5The Call of The Wild não coloca apenas o homem aventureiro e os seus animais numa situação de perigo. Mercedes, a mulher que acompanha Hal e Charles na sua expedição, apresenta-se extremamente afectada pela viagem que os três realizam, chegando mesmo a demonstrar episódios de histeria: “Mercedes screamed, cried, laughed, and manifested the chaotic abandonment of hysteria” (London, The Call of the Wild 41). Apesar da descrição do comportamento de Mercedes reforçar a ideia de que o mundo selvagem não é um ambiente apropriado para o sexo feminino, é importante notar que esta mulher desafiou a sua condição social para participar na expedição. Desta forma, tornou-se ela mesma uma aventureira. Apesar de revelar desconhecimento perante aquilo que é exigido para assegurar a sobrevivência numa região tão hostil, Mercedes surge por vezes como a voz da razão num ambiente masculino que ignora a sua opinião (Ibidem 33). Anne F. Hyde, a propósito da percepção do sexo feminino em relação ao Oeste americano, refere: “Women saw the West very differently from men (…) they saw much less economic opportunity and exciting adventure (…) they saw danger and real limits to stable agricultural and family existence” (Hyde 183). De facto, aqui não temos presente o Oeste, mas podemos aplicar esta ideia ao texto se a viagem de Buck até ao Norte do Canadá for encarada como um avanço da fronteira, algo que será explorado no seguinte subcapítulo. 

6Um dos possíveis simbolismos do nome Buck (“dólar”) pode relacionar-se com o progresso que o animal atravessa ao longo da obra, sendo uma referência não apenas ao afastamento da sociedade capitalista mas também ao progresso nacional desejável, como aponta Harper: “as Buck, so aptly named, progresses through the novel, his value increases; however, through his embrace of the wild, Buck loses all dollar value. (…) Buck is London’s version of national progress. As he transforms physically and mentally, the animal reflects for humanity the legitimate course of positive progress” (66–67). 

7Isto acontece imediatamente após a morte de John Thornton, o último dono de Buck. Thornton desenvolve uma relação extraordinária com o animal, sendo o único ser humano pelo qual Buck consegue sentir amor (“Love, genuine passionate love, was his for the first time (…) love that was feverish and burning, that was adoration, that was madness, it had taken John Thornton to arouse” (London, The Call of the Wild 42)) e este vínculo só é quebrado quando o homem morre. 

8Jack Turner, na sua obra The Abstract Wild (1996) condensa perfeitamente esta ideia através da seguinte citação: “In every manner conceivable, national parks separate us from the freedom that is the promise of the wild” (28). 

9Susan Kollin destaca aliás a noção prevalente na memória colectiva norte-americana que estabelece o Alasca como a “última fronteira”, considerando que a mesma advém das imagens prevalentes da região na década de 70 do século XX que romantizavam fortemente a história expansionista dos E.U.A. (11). A autora acrescenta ainda: “images of Alaska as a Last Frontier helped resituate the frontier past in the present era, nostalgically enlisting the region as a new site for national myths about the winning of the West” (Ibidem). 

10O chamado Klondike gold rush ocorreu entre 1896 e 1899 e caracterizou-se por uma intensa migração à região conhecida como Klondike, no Norte do Canadá e perto da fronteira com o Alasca. Os indivíduos que participavam nas expedições tinham como objectivo procurar o ouro que tinha sido descoberto na região por mineiros locais. 

11“John Thornton was dead. The last tie was broken. Man and the claims of man no longer bound him” (London, The Call of the Wild 61). 

12O presente capítulo explora algumas das características deste herói, no entanto atentemos também no arquétipo expresso por Denise Mary MacNeil na obra The Emergence of the American Frontier Hero 1682–1826: Gender, Action and Emotion, sendo que podemos verificar de imediato como o mesmo se assemelha à imagem que temos de Buck: “The hero of this archetypal myth is typically an average man who undertakes, or is forced by circumstances to make, a quest. (…) The hero cycle begins when the hero receives a “call to adventure” and leaves home, often reluctantly. He crosses a ‘threshold of adventure’ into a dangerous and supernatural underworld” (15). Além de Buck representar esta viagem sobrenatural através do relato da sua transformação num cão fantasmagórico, podemos ainda estabelecer um paralelo com outra ideia apresentada pelo autor, que aponta o próprio espaço selvagem americano como uma representação submundo (Ibidem 24). 

13Na propriedade de Miller, Buck vive juntamente com outros cães, no entanto é referido que estes não têm qualquer importância: “There could not but be other dogs on so vast a place, but they did not count.” (London, The Call of the Wild 1). Curiosamente, os únicos dois cães que vivem com Buck cujas características são especificadas são de raças não americanas (“Toots, the Japanese pug, or Ysabel, the Mexican hairless – strange creatures that rarely put nose out of doors or set foot to ground” (Ibidem)) e são apresentados como sendo inferiores e outsiders. 

14Isto pode ser comprovado pela atitude dos Yeehats quando estes observam o ataque de Buck: “Then a panic seized the Yeehats, and they fled in terror to the woods, proclaiming as they fled the advent of the Evil Spirit” (London, The Call of the Wild 60). 

15Este discurso está extremamente enraizado na cultura americana, tendo sido propagado por figuras como John Smith (1580–1631) (“The development of early narratives of Smith, and how they were drawn upon for the sake of identity and culture, were similar to how ancient Greeks and Romans created and used mythology” (Corbett 35)) ou John O’Sullivan (1813–1895) (“America is destined for better deeds. (…) We have had patriots to defend our homes, our liberties, but no aspirants to crowns or thrones (…)” (O’Sullivan 427)). Os ideais puritanos presentes desde o estabelecimento das primeiras colónias em território norte-americano contribuíram também para que o povo colonizador se percepcionasse como o escolhido por Deus para cumprir um destino subjacente à conquista deste mesmo território: “America was for them the ultimate way to salvation, the last corner of the world that God left undiscovered until His chosen people was ready to go and inhabit it and fulfil their destiny” (Mingiuc 216). 

16Quando Hal e Charles adquirem Buck, é referida a sua origem: “Then, on the morning of the fourth day, two men from the States came along and bought them, harness and all, for a song” (London, The Call of the Wild 32). 

17A propósito deste símbolo, refira-se o filme Brokeback Mountain (2005) de Ang Lee, uma vez que o mesmo contribui para a propagação da ideia de que os cowboys (representados no filme pelas personagens Ennis Del Mar e Jack Twist) se alimentavam principalmente de comida enlatada durante as suas longas viagens (00:11:40–00:12:44). 

18Esta descrição é bastante semelhante àquela que podemos encontrar em The Virginian (1902) de Owen Wister, que estabeleceu um dos paradigmas da figura do cowboy na cultura americana. Nesta obra, o cowboy referido simplesmente como Virginian (uma referência ao local de onde provém) apresenta-se como um homem jovem e forte, possuindo um característico cinto e transportando uma arma de fogo (Wister 4, 6, 29). Da mesma forma, a referência aos alimentos enlatados está também presente: “the empty sardine box lies rustling over the face of the Western earth” (Ibidem 43). 

Conflito de interesses

A autora não tem conflito de interesses a declarar.

Referências

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  2. Brokeback Mountain. Realizado por Ang Lee. Performances de Jake Gyllenhaal, Heath Ledger, e Michelle Williams, Focus Features, 2005. 

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  4. Corbett, Joseph Francis. “Captain John Smith and American Identity: Evolutions of Constructed Narratives and Myths in the 20th and 21st Centuries”. Dissertação, University of Central Florida, 2013. 

  5. Dunn, Christopher James. “Beyond Wilderness: Wildness as a Guiding Ideal”. Dissertação, University of Montana, 2009. 

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